O recém-empossado vereador de Manaus, Eurico Tavares (PSD), conhecido por sua atuação como blogueiro, usou as redes sociais para anunciar um gesto que rapidamente chamou atenção: a doação integral de seu salário de parlamentar, no valor de R$ 26.080,98, para projetos sociais em Manaus. De acordo com Tavares, os recursos serão direcionados a iniciativas comunitárias voltadas para áreas como esporte, combate à criminalidade e promoção da dignidade social nos bairros da capital.
O anúncio, feito em seu perfil no Instagram nessa quarta-feira (15), veio embalado por um discurso cuidadosamente alinhado à narrativa de engajamento social que o acompanha desde antes de sua eleição. Entre promessas de continuidade no trabalho comunitário e declarações de solidariedade, o vereador garantiu que essa será uma prática mantida até o final de seu mandato.
“Meu salário será integralmente doado a partir do meu primeiro mês de mandato na Câmara. A decisão foi tomada por mim e será mantida até o fim. O valor será encaminhado para quem precisa dele, para quem tem projetos nas comunidades”, afirmou o vereador, em tom de altruísmo, reforçando sua conexão com causas populares.
No entanto, enquanto Eurico Tavares se compromete a doar seus vencimentos, ele deixou de mencionar um detalhe crucial: a verba adicional recebida por todos os vereadores de Manaus. Além do salário-base de R$ 26 mil, os parlamentares têm direito a uma Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap), mais conhecida como o polêmico “cotão”. Essa verba chega a R$ 33 mil mensais, equiparada ao salário inicial de um juiz no Amazonas, e cobre despesas como combustíveis, locação de veículos e telefonia.
Embora o gesto de Tavares possa ser visto como louvável, ele levanta questões sobre a transparência e a real profundidade de seu compromisso social. A Ceap, muitas vezes criticada por sua falta de fiscalização, segue intocada no discurso do parlamentar. Sem qualquer menção à verba adicional, o anúncio se torna, no mínimo, incompleto. Afinal, enquanto o salário é doado, a verba milionária segue à disposição para os “gastos parlamentares”, muitas vezes alvos de denúncias de uso excessivo ou irregular.
A decisão de doar o salário ganha contornos de populismo político, especialmente em um cenário onde a Cota Parlamentar permanece um recurso não fiscalizado de forma rigorosa. Como já apontado por outros políticos, como o deputado federal Marcelo Ramos, a Câmara Municipal de Manaus (CMM) é frequentemente dividida entre dois perfis: os que “compram mandato” e os que “lacram na internet”.
A doação integral do salário é, sem dúvidas, uma ação que merece destaque, mas perde parte de sua força moral ao ignorar o “cotão”, que, somado ao salário, oferece aos vereadores um montante de quase R$ 60 mil mensais.
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